O UNIVERSAL E O PARTICULAR EM GUIMARÃES ROSA

 

Maria Célia de Moraes Leonel - UNESP/Araraquara

 

 

Propomos uma retomada da discussão acerca da presença do universal e do particular em Guimarães Rosa. Esse tema tem sido bastante explorado no que se refere às obras de plenitude, especialmente, em Grande sertão: veredas. Nesta oportunidade, procuramos refletir sobre a inserção do texto rosiano nessas duas dimensões, fixando-nos nas primeiras produções, ou seja, nos contos, inéditos em livro, publicados em periódicos em 1929 e em 1930, nos poemas de Magma de 1936 e nas narrativas de Sagarana de 1946.

O cruzamento dos dois domínios – o universal e o particular – foi assinalado, no lançamento de Sagarana, por dois críticos que destacaram, já naquele momento, o valor da obra: Álvaro Lins e Antonio Candido. O primeiro afirma que a coletâneaé “o retrato físico, psicológico e sociológico de uma região do interior de Minas Gerais, através de histórias, personagens, costumes e paisagens, vistos ou recriados sob a forma da arte de ficção.” Mas a fisionomia composta não é apenas de uma região de Minas: é “também representativa, em grande parte, de todo o Brasil do interior” (Lins, 1983, p.238). Está posta a vinculação da obra com o regionalismo ampliado, ao que o crítico acrescenta: compõe-se “o mundo regional com um espírito universal de autor que tem a experiência da cultura altamente requintada e intelectualizada, transfigurando o material da memória com as potências criadoras e artísticas da imaginação”.

Antonio Candido (1983, p.243) lembra que o êxito da coletânea prende-se “às relações do público ledor com o problema do regionalismo e do nacionalismo”. Quando Guimarães Rosa lançao livro, de acordo com o crítico, estava em alta o bairrismo. No entanto, Sagarana “transcende a região”, e a província mineira que cria é “uma região da arte”, porque o escritor realizou uma concentração de “elementos caçados analiticamente”. Pela condensação é que os contos se diferenciam dos antecessores, ultrapassando o regional e o nacional.

Como vemos, a concordância entre os críticos é grande. Antonio Candido (1983, p.245) procura apontar os elementos que levam à transcendência da obra: “Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura.”

Contudo, uma dificuldade apresenta-se em relação ao ponto de vista dos dois articulistas: a definição de “universal”. Para Álvaro Lins (1983, p.239), trata-se do regional expresso por intelecto sofisticado e erudito, mas, de modo um tanto paradoxal, atribui a transfiguração do “material da memória” à imaginação. Para Antonio Candido (1983, p.245), Guimarães Rosa chega ao universal pela síntese, pela condensação de elementos regionais e pela fatura. Como, em seguida, o ensaísta menciona a língua, "fatura" refere-se à linguagem. O universal, portanto, associa-se à construção lingüística, à forma do texto. Com essas asserções, procuramos levantar os elementos constituivos do universalismo. Entretanto, em primeiro lugar, há distância entre a erudição e a imaginação mencionadas por Álvaro Lins e a síntese e a fatura de Antonio Candido. Em segundo lugar, não é possível saber de que modo os componentes destacados compõem o universal. Antonio Candido adverte mesmo que a “qualidade básica” foge à crítica, porque deriva de “imprecisões como ‘capacidade de contar', ‘vigor narrativo’” .

 Para maior aproximação do modo como a dicotomia universal-particular se apresenta em Guimarães Rosa e do que seria o universal em sua obra, acompanhamos, nas primeiras produções, a presença ou não das duas dimensões.

Osman Lins (Apud Leonel, 1985, p.32) acredita que escritores iniciantes preferem fixar-se na imaginação e tratar de espaços longínquos ao invés de trabalhar com a matéria que lhes é próxima, como a cidade ou o país em que vivem. Guimarães Rosa seria exemplo típico desse fato, pela preferência inicial por lugares distantes. O romancista e ensaísta tem razão.

O primeiro dos contos rosianos publicados, “O mistério de Highmore Hall” (Rosa, 1929), passa-se na Escócia e narra uma história de horror. Já “Maquiné”(Rosa, 1930a), traz um título que permite crer tratar-se de narrativa ambientada no Brasil. De fato, no espaço da gruta, em tempos imemoriais, reúnem-se representantes de vários povos como hebreus, egípcios, tírios, sidônios em busca de riquezas. No entanto, embora o espaço seja representação da região mineira, os acontecimentos só se relacionam diretamente com o local por tratar-se de terra pródiga em bens naturais.

“Tempo e destino” (Rosa, 1930b) narra um torneio de xadrez no sul da Alemanha, para tratar da ordenação da vida humana por parte da providência ou do diabo. "Caçadores de camurça" (Rosa, 1930c) localiza-se nos Alpes suíços. No que se refere ao espaço, como vemos, nenhuma das composições se aproxima, de fato, do Brasil ou de Minas Gerais. Por outro lado, a filiação a diferentes temas é clara: a mulher indecisa entre dois homens, a rivalidade entre eles, a amizade que tudo suplanta em "Caçadores de camurça"; o destino a reger a vida dos homens e a metáfora do jogo de xadrex em "Tempo e destino"; o amor-paixão, o ciúme, a loucura em "O mistério de Highmore Hall" e a ambição e a prepotência em "Maquiné". Mistério, suspense, histórias com clímax - o que deixa de acontecer nos futuros textos do escritor desde Sagarana - fazem parte dessa produção imatura, com personagens esquemáticas e cuja generalização da construção do espaço só permite falar em cenário.

O conto sobre o torneio na Alemanha talvez seja o que se aproxime mais de indagações rosianas ulteriores sobre o destino – um dos pontos de união entre os contos de Sagarana – além do xadrez como metáfora que volta em “Minha gente”. De alguma maneira, os questionamentos metafísicos de Grande sertão: veredas e de outros textos posteriores de Guimarães Rosa já estão esboçados nesse conto de juventude.

Outro momento da produção rosiana em que procuramos detectar o modo como se apresentam os aspectos universais e os nacionais e/ou regionais é Magma (1997). Em trabalho anterior (Leonel, 1998), centrado no levantamento e análise de procedimentos rosianos em diferentes níveis presentes na poesia de Magma,que se repetem nas narrativas, em especial em Sagarana,verificamos a possibilidade de dividir os poemas em sete agrupamentos temáticos. Desses conjuntos, três são nitidamente particularizantes, ou seja, dizem respeito ao Brasil: vida no campo, manifestações culturais negras e indígenas e mitos e crendices. Mas outras duas séries - animais e natureza - também trazem elementos vinculados ao país.

O grupo sobre a vida no campo reúne poucas peças e a interação homem-animal é explicitada em duas delas; uma, com o título de "Boiada" (1997, p.28-32), narra-descreve a viagem de bois e vaqueiros. Já "Maleita" (Rosa, 1997, p.38-41) traz o problema da doença às margens do rio Pará.

Em "Batuque" (Rosa, 1997, p.104-107), do conjunto sobre manifestações culturais negras e indígenas, temos a dança em que o “batuque ferve”, em meio a “Sapateio, patadas”, “Cheiro de negro, catingada brava”. Quanto aos elementos mais estritamente regionais, há, no poema, o Felão, personagem conhecida em Cordisburgo.   

Além dessa, quatro peças, em geral extensas, tematizam, genericamente, características físicas e hábitos de indígenas aculturados. Em alguns textos, os índios são vistos positivamente e até exaltados. Em outros, seu comportamento foge a qualquer visão idealizante.

Em textos sobre nossos mitos e crendices, temos a iara e o caboclo d'água ainda que se apresentando no seu avesso. A primeira é sensual, mas preguiçosa e não cumpre o papel de encantar, e o caboclo d'água, por ela apaixonado, não faz medo ao canoeiro. A crença no quibungo, ao que tudo indica, também vista de modo modificado, acompanha essa incursão no universo cultural brasileiro. “Assombramento" (Rosa, 1997, p.122-124) fixa-se, sobretudo, na folia das almas que se realiza em algumas cidades de Minas Gerais às sextas-feiras na quaresma, enquanto o poder dos feitiços está em "Reza brava".

Além disso, nos grupos centrados nos animais e na natureza, a flora e a fauna nacionais estão representadas, embora não de modo exclusivo. Em alguns momentos, a paisagem, em evidente correspondência com a realidade brasileira, é composta de recortes tropicais, com tamanduá-bandeira, periquito, jaçanã, ipê, palmeira etc.

É bastante interessante o fato de que não apenas os poemas comentados têm elementos retomados na primeira coletânea de narrativas, como também são citados por Guilherme de Almeida (1968, p.6) como aqueles que trazem, "vivo de beleza, todo o Brasil: a sua terra, a sua gente, a sua alma, o seu bem e o seu mal." Poeta vinculado ao nacionalismo modernista, certamente, identifica essa faceta na poesia de Guimarães Rosa e afirma ainda ser ela "centrífuga, universalizadora, capaz de dar ao resto do mundo uma síntese perfeita do que temos e somos." Novamente, topamos com a idéia de universalidade – ligada à de brasilidade –, sem termos uma indicação do que a primeira significa.

Contudo, é fundamental verificarmos que, dos contos iniciais, distantes da realidade brasileira, passa-se, em uma parte dos poemas, a uma aproximação da vida nacional, optando-se, principalmente, pelos aspectos culturais.

Como foi mostrado, Álvaro Lins e Antonio Candido consideram Sagarana como sendo, a um tempo, regional, nacional – ou seja, particular – e universal. Para Antonio Candido (1983, p.244), o livro diferencia-se do regionalismo que o antecede pela condensação. Ao ver do crítico, os diálogos são artificiais pelo excesso de ditados e parábolas, do mesmo modo que há exagero na relação de plantas e animais na região criada por Guimarães Rosa. Certamente, ditados e parábolas, de um lado, recriam um aspecto da vida sertaneja, cuja linguagem proverbial pode ser reflexo de uma maneira de ver a vida em que a determinação é maior que o livre-arbítrio. De outro lado, a forma de pensamento própria das parábolas tem relações com narrativas como "O burrinho pedrês" e "A hora e vez de Augusto Matraga" cujo caráter de exemplaridade já foi apontado (Sperber, 1976). Essa característica de conto exemplar contém algo próximo da dimensão universalizante de Sagarana.

Todavia, nas histórias da coletânea, sobressaem a linguagem – que imita o linguajar interiorano mineiro por meio do vocabulário com regionalismos, brasileirismos, arcaísmos e de torneios sintáticos específicos – o domínio da paisagem regional, a sua flora e fauna, a presença de elementos culturais regionais e nacionais na ação das personagens. O espaço construído, entretanto, não é ainda o sertão, nem mesmo o sertão geográfico, com exceção de alguns momentos de "A hora e vez de Augusto Matraga". Quanto ao universo cultural, representado pelos fatos narrados que têm vínculos com as atividades das personagens, temos: a vida do vaqueiro e suas peculiaridades, o trabalho com o gado e sua imprevisibilidade, as crenças, os costumes.

Apaisagem sertaneja, como outros aspectos da vida do interior mineiro, está consignada em todas as narrativas. “São Marcos”, em que há acentuado capricho na descrição da paisagem e onde minúcia e construção estética se aliam, ilustra o modo como o mundo "fitozoológico" rosiano chega ao leitor. Nesse conto - e também em "Corpo fechado" - há outra característica do regionalismo e da cultura brasileira a ser destacada: a presença do sobrenatural através da feitiçaria, da magia popular.

Outro dado da cultura nacional representado com insistência na coletâneaé o da chamada defesa da honra. Willi Bolle (1973, p.59), analisando os contos de Sagarana, conclui que, em oito das nove composições, “o ato agressivo ou delito é seguido de sanção”. Isso o leva a deduzir, “como característica mais geral dos enredos ... uma tendência moralista.” Nesse universo, em que “Uma agressão ou um delito é sempre ameaça de determinados valores sociais”, destaca dois deles: a justiça social e o casamento. "Conversa de bois" trata de ambos: Agenor Soronho, proprietário, explora Tiãozinho e é amante da mãe do menino. Mas a acusação moral referida ao adultério chama a atenção pela freqüência - está em cinco das oito narrativas em que o delito é seguido de sanção geralmente mortal. Daí o ensaísta (1973, p.61) inferir que Guimarães Rosa “assume a função de reforçar um valor da sociedade, o casamento”. Mesmo quando há ajuda milagrosa - que "confere aos contos um cunho fantástico e os aproxima de matizes das narrativa populares”, permitindo-lhes escapar à previsibilidade das sanções negativas - essa só acontece “dentro dos limites da causalidade moral”. Para Willi Bolle (1973, p.62), portanto, Guimarães Rosa é “escritor moralista, conservador, embora despertado para os problemas sociais”.

O tragicômico conto "Duelo" mostra como a lavagem da honra “ultrajada” era corrente e desprovida de sanções. Acreditando ter matado Cassiano, Turíbio Todo pensa que “tinha de cair no mundo e passar algum tempo longe, e tudo estaria muito bem, ... igualzinho a outros casos locais.” (Rosa, 1967, p.142) Em "Minha gente", Xandrão Cabaça mata Bento Porfírio, que andava com a mulher dele. O chefe local proclama sobre o acontecido “- Para os mortos... sepultura! Para os vivos... escapula!...” (Rosa, 1967, p.195)

Do que foi apresentado, conclui-se que a preocupação dos narradores, na maior parte dos textos, é mais moral que social. Mas há, entre os fatos narrados, aqueles que dizem respeito às relações sociais entre os habitantes das pequenas cidades: trata-se do domínio dos chefes políticos sobre os demais. Supremacia na vida política e posse de terra vivem de mãos dadas: o chefe, muitas vezes autoridade máxima, é sempre grande fazendeiro.

Assim, de um lado, vemos situações como a que envolve o chefe político e Xandrão Cabaça em "Minha gente". O primeiro não impede a fuga do assassino, mas, lembrando-se de que já perdera o voto do morto e de que perderia mais um, manda esconder o matador. A mesma arbitrariedade faz com que os espanhóis sejam expulsos pelos capangas do Major em "A volta do marido pródigo". Aí está uma amostra do tipo de relação entre os chefes e os demais.

De outro lado, há a relação dos chefes com outros chefes, proprietários e autoridades. É nesse ponto que parece estarmos perto do modo como Machado de Assis representa a elite no Segundo Império: como bem mostra Roberto Schwarz (1990), a falta de respeito que permeia as relações entre os desiguais também vigora entre os iguais. Tanto em “A volta do marido pródigo” como em "Minha gente", as relações entre chefes políticos e entre eles e outras personagens investidas de poder apontam o desrespeito. A proximidade das eleições é oportunidade para que se exponham as artimanhas da política local no interior de Minas Gerais e, certamente, do país. Podemos ver isso com tio Emílio, o chefe em "Minha gente", e sua "política sutilíssima": "faz oposição à Presidência da Câmara no seu Município (nº 1), ao mesmo tempo que apóia, devotamente, o Presidente do Estado. Além disso, está aliado ao Presidente da Câmara do Município vizinho a leste (nº 2), cuja oposição trabalha coligada com a chefia oficial do município nº 1." As "duas enredadas correntes cívicas ... também disputam a amizade do situacionismo do grande município ao norte (nº 3). Dessa trapizonga, ... resultarão vários deputados estaduais e outros federais ...” (Rosa, 1967, p.183-184) O comandante do destacamento policial já foi trocado duas vezes em seis meses, mas deve haver nova mudança, “Porque, lá na Capital, ... as duas facções são atendidas rotativa e relativamente.” (Rosa, 1967, p.185) Em “A volta do marido pródigo”, às espertezas do Major, junta-se a série de intrigas comandadas por Lalino. Aliás, o descaso com os demais começa quando o Major, a princípio, não quer Lalino por perto porque ele tinha vendido a família, mas aceita-o imediatamente após o irmão mostrar-lhe quanto o "mulatinho" lhe seria útil. Seguem-se, de um lado e de outro, traições, por meio de relações de compadrio, fuxicos referentes à “pouca religião” do adversário, exploração de disputas, ameaças, mentiras. Entre as tramóias mais graves está o ato de induzir o filho do adversário a engravidar a filha de quem o apoiava, sabendo que o rapaz não se casaria com a moça.

Assim, se não são as relações de poder que avultam, elas estão presentes. Isso se verifica através de diferentes modalidades de dominação num espaço em que os detentores do controle político e financeiro exercem o poder por vários meios, incluindo-se o uso da violência, em geral, empregada por capangas, mas também pelos próprios chefes. Há também os valentões que obtêm poder unicamente pela força bruta.

 A união entre poderio econômico e violência pessoal resulta na ação do protagonista de "A hora e vez de Augusto Matraga", o valentão Augusto Esteves. O pendor para a violência é próprio dele, mas o que lhe permite exercitá-la é o fato de ser proprietário e filho de família de prestígio, de viver cercado de capangas em local em que não existem policiamento e aparato judicial. Em “Corpo fechado”, evidencia-se também esse fato: o medroso e labioso Manuel Fulô conserva o título de valentão, porque, depois de vencer Targino, “um destacamento policial veio para a Laginha, e desapareceram os cabras possantes, com vocação para o disputar.” (Rosa, 1967, p.281)

Em "A hora e vez de Augusto Matraga", contamos ainda com um tipo de relação social baseada na violência mais eficaz e organizada: a dos jagunços.

Os diferentes aspectos apontados, no que se refere à representação cultural e das relações sociais, não são ou não eram exclusivamente mineiros, mas também nacionais. É o caso da crença na magia popular; de impunes assassinatos em defesa da honra; do abuso de poder político por parte dos que o detêm; do uso da violência por essas pessoas, como também pelos jagunços e valentões; das artimanhas eleitoreiras dos chefes. Assim, se a dimensão regional avulta em Sagarana, o livro não se restringe a ela, mas tem amplitude nacional.

Mas a coletânea de 1946 apresenta uma terceira dimensão – a universal – sobre a qual passamos a refletir. Antonio Candido (1983, p.244) sustenta que Sagarana "não é um livro regional como os outros, porque não existe região alguma igual à sua, criada livremente pelo autor com elementos caçados analiticamente e, depois, sintetizados na ecologia belíssima das suas histórias." O crítico refere-se ao universalismo da coletânea. Para tratarmos de modo mais consistente dessa direção de Sagarana, tomamos outras considerações do mesmo especialista, em ensaio sobre os jagunços (1970, p.148), em que afirma acerca de Grande sertão: veredas: “naquele sertão, o jaguncismo pode ser uma forma de estabelecer e fazer observar normas, o que torna o jagunço um tipo especial de homem violento e, por um lado, o afasta do bandido.” Embora se refira ao romance rosiano, o comentário serve também para "A hora e vez de Augusto Matraga". Acompanhando ainda Antonio Candido (1970, p.149) a propósito do jaguncismo na história de Riobaldo, lemos: “há em Guimarães Rosa um ‘ser jagunço’ como forma de existência, como realização ontológica no mundo do sertão. Sem prejuízo dos demais aspectos, inclusive os rigorosamente documentários, este me parece importante como chave de interpretação.” (Grifo nosso) Na menção à “realização ontológica no mundo do sertão”, há uma porta de entrada para a reflexão sobre a orientação universal de Sagarana, pois o crítico (1970, p.151) vincula esse fato à dimensão mais ampla do romance: "Guimarães Rosa supera e refina o documento ... por meio da sublimação estética. Por isso, não basta procurar nele em que medida a ficção vale como transposição dos fatos; mas também em que medida o comportamento do jagunço aparece como um modo de existência, como forma de ser no mundo, encharcando a realidade social de preocupações metafísicas."

Aproximando essa afirmação de Antonio Candido de 1965 de outra, de 1946, sobre Sagarana, observamos que a produção rosiana, ulterior ao livro de estréia, permite ao crítico aprofundar as considerações sobre o que seja o universal na literatura. Em 1946, relaciona essa dimensão ao "alcance" e à "coesão da fatura", vinculando "fatura" ao uso da língua. A idéia de que o universal é uma questão de densidade de linguagem repete-se na referência à “sublimação estética”. Mas, em 1965, para Antonio Candido, a “sublimação estética” e, portanto, a direção universal, é correlata também às “preocupações metafísicas”, ao valor ontológico apresentado. Sobre isso, aliás, o crítico (1970, p.151) propõe um “teste”: provavelmente, ninguém se reconhece em personagens de Mário Palmério ou de Afonso Arinos. “No entanto, todos nós somos Riobaldo, que transcende o cunho particular do documento para encarnar os problemas comuns da nossa humanidade, num sertão que é também o nosso espaço de vida.”

A partir dessas idéias, parece-nos que em Sagarana não há, propriamente, textos de dimensão universal, mas há neles componentes universais. Em “A hora e vez de Augusto Matraga”, a história de conversão permite questionamentos metafísicos e o combate entre Matraga e Joãozinho Bem-Bem é momento exemplar para a detecção desse fato. Não se trata de luta qualquer, mas de embate entre o bem e o mal, em que não se sabe onde está um e outro. Onde o bem se, para salvar uma família, Matraga tem que, de forma sanguinolenta, matar o chefe jagunço que tanto estima? Onde o mal, se Matraga salva uma família em nome de Nosso Senhor e da Virgem Maria e, assim, chega à santificação? A duplicidade que permite, a um tempo, a realização do sagrado e do profano mais violento, não à toa, é bem cedo antecipada na narrativa, nessa maravilha que é ir "p'ra o céu" "a porrete". Desse modo, podemos dizer que a entrada da obra de Guimarães Rosa na dimensão universal dá-se em Sagarana.

Na produção rosiana inicial, em termos cronológicos, as três dimensões em que se desdobram o universal e o particular podem ser apresentadas da seguinte maneira: a nacional em Magma, a nacional-regional em Sagarana e a união de ambas com a universal no último conto dessa coletânea.

 

 

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